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| Solitude is Bliss - Wandering Heart |
*Trilha sonora do post: She Changes the Weather - Swim Deep*
O barulho do rio me chama a atenção e, quando percebo, estou descalça acompanhando seu caminho e seu movimento, sentindo na sola dos pés a terra úmida e as folhas amolecidas. Folhas caídas de árvores mais antigas do que eu mesma e do que minhas dores - que parecem tão irreais e tão infantis ali, como se a água estivesse me lavando por dentro.
Na minha cesta, que deveria conter florzinhas amarelas, começo a colecionar pedras. Vou recolhendo, ao longo da borda do rio, todas as pedras que vejo, e a cada uma delas dou um nome e um significado, ainda sem entender o motivo deste meu impulso meio bobo.
Primeiro, recolho uma pedra pequena e redonda, com jeito de gasta pelo tempo, e ela nomeio como "meus medos de criança". São medos tolinhos, do tipo dormir-de-luz-apagada ou colocar-o-pé-para-fora-da-cama e que, se eu analisar bem, vez ou outra ainda carrego comigo. A pedrinha fica ali, no fundo da cesta, solitária.
Um pouco à frente, pego uma pedra um pouco maior que esta primeira e já não tão redonda, e penso nos meus "anseios de criança". Estes são mais pesados e mais disformes, incômodos na palma da mão: anseios pelo pai distante, pelos amigos não feitos, pela casa cheia e alegre. Largo rapidamente a pedra na cesta, antes que tais pensamentos tomem conta de mim.
Tropeço, então, em meio à umidade da terra da beira do rio, em uma pedra maior que todas as outras até então, negra e polida, diria até que se tratava de uma pedra tristemente bonita. Ela nomeio de "crises da adolescência" e todas as inadequações, solidões e pequenas tragédias desta época. Eu sei, eu sei: você dirá que existem muitos livros que abordam cientifica e psicologicamente o quanto esta fase é difícil para todos. E eu te respondo: dane-se! Dane-se se é assim com todos - o que importa é que foi assim para mim, e eu odeio isso.
Com esta pedra, a cesta se desequilibra um pouco, mas eu continuo segurando-a.
Logo à frente, vejo várias pedras parecidas, todas mais ou menos do mesmo tamanho, formato e cor. Elas são as pedras dos "meus sonhos esquecidos". Ser astronauta, mais bonita, viajar o mundo em um balão, ter um castelo para chamar de meu, ver aurora boreal, ser escritora, ter família. Tantos sonhos que vão ficando pelo caminho, conforme o mundo te diz: cresça! Mas eu não cresci. E lá vão estas pedras para o fundo da cesta.
Então, logo adiante, está a maior pedra de todas. A mais feia e mais deformada, toda angulosa e esquisita: a ela dou o nome de "pedra do desamor". Foi a pior que já encontrei ao longo do rio - ao longo da minha vida. Ela traz não só a dura realidade de que, às vezes, o amor é uma ilusão que deixa uma cicatriz profunda, como também traz a verdade de que eu me des-amei no percurso da vida. A pedra tem o peso da culpa, do remorso, do arrependimento e de mil escolhas mal feitas. É uma tonelada inteira de tristeza e dor.
Ela nem cabe na cesta. E, na tentativa de fazê-la se encaixar em meio às demais pedras, me cai um cansaço de um universo inteiro desabando - o universo que tem dentro de mim não aguenta. E eu desmorono.
Não posso mais andar com uma cesta tão pesada. Preciso me livrar dela para poder continuar andando, sentir a terra úmida nos pés descalços, nadar nas águas claras do rio. Toda aquela beleza do mundo ao meu redor ainda me chama, ainda me cativa, apesar de toda a angústia. Eu ainda tenho sol dentro de mim, e isso nunca deixarei morrer.
A decisão vem aos poucos e, quando chega completa, não há nada que possa me fazer mudar de idéia: chuto minha cesta com muita raiva para dentro do rio. As pedras rolam, afundam e somem nas suas águas, fazendo parte do leito do rio - da estrutura da minha vida - mas não mais do meu caminho. Primeiro, afundam as pedras maiores e mais pesadas, e com gosto vejo a pedra do desamor se afogando em esperança e limpeza.
Então, minha cesta está ali, derramada e vazia, pronta - prontíssima! - para receber lindas e delicadas florzinhas amarelas. Mas, antes, me banho no rio, de alma limpa e pura e cristalina.




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