Quero ir embora - Capítulo 3: o Fim

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Capítulo 3: o Fim

Quando ele passou pela abertura do seu Coração, ele se viu em uma nuvem. Aquela imensidão branca o pegou desprevenido, mas ele automaticamente percebeu que se tratava da mesma luz que um dia saiu dele mesmo. Ele reconheceu o cheiro do branco, a textura do branco, tudo: ele se sentiu como se fosse ele mesmo espalhado no ar, existindo. Esperou alguns segundos, pois sabia que a Voz falaria com ele – fazia tempo que eles não se conversavam, e havia muitas perguntas a fazer e muitas respostas a receber.

A vida é mesmo irônica, não acha, garoto? – disse a Voz. – Lembro-me do dia que te dei uma forma e te coloquei no mundo, e pensei: se ele conseguir cumprir as missões, há de encontrar aquela menina na árvore. Se não, não encontrará. O que tem de ser, é. Tão simples. Não posso dizer que estou surpreso por você tê-la encontrado, mas estou por vocês dois terem continuado. Compliquei bastante as coisas.

Onde ela está?, ele perguntou amedrontado.

Olhe para baixo, respondeu a Voz.

Ele conseguiu ver os cabelos dela ao vento, os braços e pernas erguidos, seus olhos fechados e um grito meio mudo saindo de dentro dela. Ele via a altura, a velocidade, o espaço, o tempo: ele a sentia desaparecendo em cada osso que tinha, sentia a dor deixando-o paralisado, sentia seu Coração de humano sendo dilacerado. Aquilo estava além do insuportável: era indescritível.
Seu Coração estava silencioso, e travado.

Você ainda não me perguntou porque te transformei em pessoa, menino. Pensei que seria a primeira coisa que sairia da sua boca. Mas acho que você está amando demais para perceber que essas coisas são importantes. Bom, talvez não sejam mais. Ande logo, vá busca-la: prometo parar com minhas brincadeiras de humor negro. – disse a Voz.

Ele nada ouvia. Nada queria ouvir. Nada mais importava.

Então, ele pulou atrás dela. Num ato de coragem tosca e babaca – de que adiantaria, se ambos morreriam naquela queda, e ele não conseguiria salvá-la? Mas ele pulou mesmo assim: se conseguisse resgatá-la, então tudo estaria bem. Se não conseguisse – bem, a vida já não valeria a pena sem ela de qualquer maneira.

A velocidade da queda dele era menor, e ele continuava longe dela, vendo-a cair cada vez mais. Os cabelos dela tinham um brilho bonito naquela luz do céu, e a nuvem de onde a Voz vinha ficava cada vez mais longe. Ele sentia o vento agora nele, frio e cortante, e preocupou-se tolamente se ela estaria sentindo frio. Mas ele sentia que, se ele a visse ali, indo atrás dela, tudo estaria resolvido.

Juntou o pouco de forças que tinha, e misturou sua voz à do seu coração, em um raro momento que ambas as vozes tornaram-se uma. E gritou, para o céu e para o nada, como nunca achou que fosse possível:


- Eu não quero que você vá embora.

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