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Capítulo 2
Ele era incomodamente silencioso. O silêncio dele era diferente do silêncio que ela estava acostumada. Os silêncios de ambos diziam coisas diferentes.
Ele andava mais à frente, como um guia, entrando mais fundo no aglomerado de árvores jovens. Desviava com facilidade de galhos mais baixos e se movia como se fosse dono daquele lugar. Parecia estar completamente acostumado com o tom do verde das folhas, apesar de ser um tom anormal e quase venenoso. Ela vinha logo atrás, olhos grandes e atentos, como que absorvendo cada centímetro de um mundo completamente novo, apesar de ainda ser a mesma floresta onde viveu por anos e anos. Era um estranhamento familiar, esquisito e de processamento incompleto dentro de seu cérebro. Não chegava a ficar para trás na caminhada, mas estava longe de estar tão confortável e segura de si quanto ele.
O silêncio dele dizia sobre um fechamento. Soava como uma porta, dessas trancadas por dentro, que a pessoa de fora não consegue abrir. O silêncio dele soava como uma série de queixas de incompletude, de insatisfação, de recriminações. Era um silêncio orgulhoso, agressivo, emotivo e indigesto. E o acabamento era uma camada de verniz de indiferença.
O silêncio dela não era assim. Soava como uma melancolia dolorida e de cor pastel. Soava como o desabafo de um coração partido que não sabe o que fazer de si mesmo. Era um silêncio humilde, pacífico, sensível e estável.
Eles não se conversavam. Nem dentro dos silêncios de cada um, nem com palavras. Ela tentava achar uma maneira de se conectar a ele, mas a porta estava lá, sempre trancada.
E então, ela pensava: quero ir embora.
E esse pensamento vinha, de segundo em segundo, cada vez mais recheado de angústia.
Ele era incomodamente silencioso. O silêncio dele era diferente do silêncio que ela estava acostumada. Os silêncios de ambos diziam coisas diferentes.
Ele andava mais à frente, como um guia, entrando mais fundo no aglomerado de árvores jovens. Desviava com facilidade de galhos mais baixos e se movia como se fosse dono daquele lugar. Parecia estar completamente acostumado com o tom do verde das folhas, apesar de ser um tom anormal e quase venenoso. Ela vinha logo atrás, olhos grandes e atentos, como que absorvendo cada centímetro de um mundo completamente novo, apesar de ainda ser a mesma floresta onde viveu por anos e anos. Era um estranhamento familiar, esquisito e de processamento incompleto dentro de seu cérebro. Não chegava a ficar para trás na caminhada, mas estava longe de estar tão confortável e segura de si quanto ele.
O silêncio dele dizia sobre um fechamento. Soava como uma porta, dessas trancadas por dentro, que a pessoa de fora não consegue abrir. O silêncio dele soava como uma série de queixas de incompletude, de insatisfação, de recriminações. Era um silêncio orgulhoso, agressivo, emotivo e indigesto. E o acabamento era uma camada de verniz de indiferença.
O silêncio dela não era assim. Soava como uma melancolia dolorida e de cor pastel. Soava como o desabafo de um coração partido que não sabe o que fazer de si mesmo. Era um silêncio humilde, pacífico, sensível e estável.
Eles não se conversavam. Nem dentro dos silêncios de cada um, nem com palavras. Ela tentava achar uma maneira de se conectar a ele, mas a porta estava lá, sempre trancada.
E então, ela pensava: quero ir embora.
E esse pensamento vinha, de segundo em segundo, cada vez mais recheado de angústia.
Mas ela estava fascinada. Assustada, mas fascinada. E o silêncio dele só a deixava ainda mais curiosa, e eles se embrenhavam cada vez mais por entre as árvores. E de dentro do silêncio dela, começaram a surgir vozes: dizendo que voltasse, que corresse, que desistisse, que tudo daria errado - ele iria embora e ela ficaria para sempre perdida em meio àquelas árvores desconhecidas e nunca mais acharia o caminho de volta para seu tronco velho e carcomido (mas seguro).
- Corra enquanto pode! – dizia a angústia dentro do silêncio.
Então ela percebeu que não poderia. Não havia mais volta.
Ela queria descobrir do que o silêncio dele era capaz.
Então, ele parou e a olhou com aquele sorriso-que-doía, por cima do ombro esquerdo, com uma luminosidade esperta no olhar que a fascinou ainda mais. Disse com os olhos: venha!
Então ela percebeu que não poderia. Não havia mais volta.
Ela queria descobrir do que o silêncio dele era capaz.
Então, ele parou e a olhou com aquele sorriso-que-doía, por cima do ombro esquerdo, com uma luminosidade esperta no olhar que a fascinou ainda mais. Disse com os olhos: venha!
***
Ela era agradavelmente silenciosa. Mesmo com o susto de vê-lo saindo da luz, mesmo com a perspectiva de perder-se em um pedaço da floresta onde ela nunca fora, mesmo quando ele caprichava e lhe dava seu olhar mais misterioso – ainda assim, ela continuava ali, logo atrás dele, permitindo que ele a guiasse do jeito que bem entendesse. O silêncio dela dizia sobre sua curiosidade, sobre uma pulsão de vida escondida. E mesmo assim, ela era melancólica e doce.
Ele tentava dizer, através do próprio silêncio, que estava ali. Não por qualquer motivo, mas por ela. Para entrar no silêncio dela, e recolher dali palavras que a recuperassem. Porque claramente, apesar da doçura, ela era como uma boneca quebrada. Mas ele também era um brinquedo torto. Olhou por sobre o ombro e sorriu, pensando em si mesmo como um carrinho de plástico sem rodas.
Ela devolveu seu olhar com fascinação. Mas também havia medo.
Quem não sente medo, que atire a primeira pedra.



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