Me costura


*Trilha sonora do post: Young and Old - Gregor Samsa*

Não sei o que fazer com este monte de pedacinhos meus espalhados pelo chão. São como pequenos retalhos de tecido, sem nenhum padrão na forma, na textura, na estampa, ou nas cores. É somente uma completa bagunça, um emaranhado sem sentido onde tropeço. Nada encaixa em lugar nenhum, e em todas as minhas tentativas anteriores de reconstrução, nunca cheguei a lugar algum. 

Eu já sei o que preciso fazer: estou com a linha e a agulha nas minhas mãos. Mas não sei por onde começar. Todos os meus retalhos parecem tão feios e tão gastos, como se não valessem o trabalho de juntá-los. Não consigo enxergar, no meio dessa confusão, o que posso criar que seja bonito. 

No momento me sinto fraca, até mesmo para costurar. E me culpo por isso - todos dizem que devo ser forte, que meus pensamentos são bobagens sem sentido, que perco tempo andando em círculos e sempre repito o mesmo discurso. Ou talvez quem pense isso seja o meu juízo, me recriminando como só ele é capaz de fazer.

Me culpo também pelo meu passado. De agora e de antes, muito antes. E, acima de tudo, me culpo por ser assim como eu sou - essa bagunça de tecido velho no meio da sala. Um pano de chão, que tem a esperança ser limpo e inteiro um dia. Olho a linha, a agulha, minhas mãos, e despenco-as em cima do meu colo, cansada demais.

Como perdoo a mim mesma? Perdão dos meus erros e fraquezas. Das minhas feiúras e besteiras. De como às vezes sou quadrada e fechada, uma inadequação sem fim. Não levo muito jeito para estar aqui, no final das contas. Nem escrever mais eu sinto que faço bem.

Me sinto frágil e velha.
E sem valor algum.

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