Ontem x Hoje


*Trilha sonora do post: Crystalline - pg. lost*

Não entendo porque aquela menina está ali sentada, tão distante de todos, e tão triste. Ou melhor: entendo, porque ela é um pedaço irreversível de mim, mas não consigo alcançá-la - a sua dor e a sua solidão são tão velhas para um corpo de menina, e parecem inalcançáveis mesmo para ela. Esfrega as pequenas mãos nos joelhos roxinhos e tampa os olhos com o cabelo escuro. Os olhos, distantes, tão distantes quanto olhos de criança podem ser. Porque parece que a tristeza de uma criança dói mais que a nossa.
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Eu percebo um mulher ali na esquina me olhando, mas não quero enfrentá-la. Sei que ela sente pena de mim, da minha perceptível não habilidade em ser quem eu sou, e não quero ver em seus olhos a frustração e a não aceitação por eu ser assim. Sei que ela é o que eu serei um dia: sei que estou olhando para quem me tornarei no futuro, mas não quero que ela se lembre do que um dia foi.
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Vendo-a, aquela menina, sentada encolhida entre as pernas, sinto meu coração tremer. Eu lembro de cada sensação daquele meu passado, lembro de cada pensamento que eu tinha quando era ela: e tudo pode ser resumido a solidão. Não somente uma solidão de amigos, mas uma solidão minha - eu mesma nunca estive presente na minha própria vida, desconectada que sempre fui de todos. Vivendo dos sonhos que construí dentro da minha cabeça. 
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Será que minha versão mulher guardou meus sonhos ou jogou-os fora? Quero que ela se lembre de que já quis ser astronauta, porque acreditava que poderia tocar as estrelas e ver do que elas eram feitas. Quero que ela se lembre de que gosto de desenhar, de criar bichos que não existem, mundos imaginários e trilhas sonoras para todos os momentos importantes. 
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Quero que ela saiba que não perdi sua mania de observar as flores, que ainda gosto de pisar nas folhas secas para escutar o barulho que elas fazem, que crio diálogos inteiros com as pessoas dentro da minha cabeça como um filme - e imagino como eu gostaria que as coisas fossem. Ah, menina, e então me enrosco inteira pois, mesmo grande, ainda desejo que meu mundo de fantasia exista algum dia.
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Eu quero que essa mulher olhe para mim e sinta orgulho do que ela foi um dia. Que ela aceite eu ser silenciosa, melancólica e distante. Que ela aproveite a minha vontade de construir castelos, de desenhar arco-íris, de pintar paredes e deixar recadinhos em livros. 
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Quero que essa menina olhe para mim e se orgulhe do que se tornou. Que perceba que, quando estou feliz (ou amando) e fico completamente atrapalhada sem saber o que fazer ou como agir, que ela dê risada de mim com carinho. Que ela veja, nas minhas lágrimas, que ainda carrego sua dor, mas que luto - Eu luto! -  todos os dias, para ser alguém melhor.

Sem perceber, nos aproximamos uma da outra. A menina levantou-se, derrubando seus lápis de cor e cadernos pelo chão, e eu andei tropeçando na minha falta de jeito comigo mesma. Ela me estendeu a mão, e eu a abracei. Lembrei do cheiro que eu tinha com aquela idade. E ela (eu, que seja), levantou os olhos e juntas dissemos:

- Eu amo você, como você é.

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